segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Entrevista: Educação focada no futuro (Parte 3)

Esta é a terceira parte da entrevista (das cinco que publicarei semanalmente aqui no Blog) que concedi à Revista Nossa Escola em Dezembro/2008 – final de meu mandato como secretário da Educação de Orlândia (2001 à 2008).

O tema tratado nessa parte é Inclusão Social.

FOTO: Revista Nossa Escola

Uma de suas ações, enquanto secretário da Educação, foi a uniformização do material pedagógico da Rede Escolar de Orlândia. Qual a avaliação que faz depois de oito anos?

ESTEVÃO: O sistema anterior à municipalização permitia que os professores escolhessem, com base em seus próprios critérios, os livros oferecidos pelo Ministério da Educação. Assim, cada turma, cada série e cada escola seguia um sistema diferente de ensino. Se um aluno fosse transferido de uma escola para outra não haveria uma continuidade clara do ensino. Essa ausência de uniformidade pedagógica era um problema que tínhamos que combater. Foi necessário sobrepor a política da Secretaria sobre as desigualdades da Rede Escolar. Como em futebol, resultados precisam ser perseguidos por um time que tenha conjunto. Precisávamos de um sistema – e quero enfatizar: um sistema que funcionasse efetivamente. O que fizemos, então, foi unificar o material e adotamos uma orientação pedagógica que poderia ser trabalhada por todos da Rede, com o mesmo objetivo e que possibilitaria avaliar a todos da mesma forma. Isso serviu também para que pudéssemos colocar as mesmas metas para todas as escolas. Hoje temos uma base pedagógica e acredito estarmos num patamar em que é permitido seguir adiante. Devo ressaltar, no entanto, que não devemos impedir que as diferenças individuais contribuam para o sucesso coletivo.

Na primeira gestão (2001/2004), o foco foi estruturar e uniformizar a Rede de Ensino. E quanto à segunda (2005/2008), a meta foi a inclusão social?
ESTEVÃO:
Quando começou a circular nos meios pedagógicos, o termo inclusão não tinha um significado claro. Muitas vezes era subentendido apenas como uma obrigação em aceitar deficientes físicos ou de qualquer natureza nas escolas. Em Orlândia o conceito sob o qual sempre trabalhamos foi mais abrangente desde o início. Todas as ações visavam incluir, com igualdade de direitos e obrigações, todos os diferentes indivíduos e comunidades, respeitando a diversidade e atendendo a cada um conforme suas próprias necessidades. Que todas as escolas sejam tratadas igualmente, sem distinções preconceituosas – essa foi a política adotada pela Secretaria desde o início de minha gestão como secretário da Educação de Orlândia. Isso é inclusão. Outro exemplo muito claro de nossas ações em torno desse conceito foi a adoção do Programa Atleta do Futuro/SESI em nossas atividades extracurriculares. Quando procurei o SESI, descobri que o objetivo não era preparar o aluno para medalhas, deixando fora das aulas a grande maioria que não consegue alcançar índices de aproveitamento, na natação, por exemplo. Foi esse o principal objetivo que nos levou à decisão de ficar com o programa. Assim, as aulas oferecidas, seja de futebol, dança ou natação, estão sempre lotadas, com todos participando e desenvolvendo suas potencialidades. Todos precisam ter a mesma oportunidade. Isso é um bom exemplo de inclusão.

Como teve início esse processo em Orlândia?
ESTEVÃO:
Em 2001 já começamos a refletir sobre os problemas com essa ótica, mesmo que de forma ainda inconsciente, nos deixando orientar mais pela formação pessoal do que por conhecimentos de causa. Em 2002 colocamos em prática quando regionalizamos a matrícula, tratamos todas as escolas de forma igual, uniformizamos procedimentos e demos condições mínimas para que todas as crianças pudessem participar de atividades escolares. Alunos da APAE (Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais) também foram incorporados pelas escolas. Em 2008, o Fórum Permanente de Educação (evento realizado anualmente pela Secretaria) teve como tema a Inclusão Social e chegamos à conclusão de que sem ela, nunca vamos conseguir atingir nosso objetivo: fornecer uma educação pública e gratuita de qualidade para todos, sem distinção. Mas enfatizo: foi a prática que nos permitiu estudar mais a fundo esta questão, juntamente com o contato que tivemos com inúmeros educadores proeminentes do nosso Estado.

A inclusão é hoje, então, uma realidade no Ensino de Orlândia?
ESTEVÃO:
Não é, ainda, uma realidade, apesar de todos os progressos que tivemos. Essa é uma questão que depende muito do envolvimento das pessoas, pois o conceito de inclusão é incorporado aos poucos – não há como ser imposto. Está sujeito a mudanças culturais e preconceitos inerentes que cada indivíduo carrega consigo. A inclusão virá com o tempo, no dia a dia, por meio de práticas e reflexões que transformarão, gradativamente, antigos hábitos em novas atitudes, numa visão mais democrática, em que a pluralidade seja realmente respeitada. Portanto, inclusão social é exercício. E todos nós, cidadão, temos esse dever de casa a fazer.

Nenhum comentário:

Postar um comentário