segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Entrevista: Educação focada no futuro (Parte 2)


Esta é a segunda parte da entrevista (das cinco que publicarei semanalmente aqui no Blog) que concedi à Revista Nossa Escola em Dezembro/2008 - final de meu mandato como secretário da Educação de Orlândia (2001 à 2008).


*Foto publicada junto à entrevista, na revista Nossa Escola.


Pode-se afirmar que a municipalização do Ensino foi o grande desafio de sua gestão como secretário da Educação Municipal de Orlândia?
Estevão: Acredito que tenha sido o caminho encontrado para, aí sim, encararmos o grande desafio: problemas de semianalfabetização detectados em uma considerável fatia de alunos que estava terminando o Ensino Médio. Não adianta ter um sistema de ensino que não ensina. Mas como poderíamos agir com uma Rede controlada pelo Estado? A possibilidade de municipalizar surgiu com a criação do FUNDEF (hoje FUNDEB – Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação), que oferece aos municípios a possibilidade de assumir, com liberdade administrativa, a responsabilidade pelo Ensino Fundamental. Foi a oportunidade para que pudéssemos atuar de forma efetiva.

Então municipalizar mudou o Ensino de Orlândia?
Estevão: Claro que não! Se tivéssemos municipalizado e deixado as coisas como estavam, não teria adiantado. Portanto a municipalização, eu reafirmo, foi apenas o caminho para propor soluções e agir sobre uma Rede de Ensino problemática em que 30% dos alunos do Ensino Médio tinham nível de alfabetização e instrução matemática insuficientes para sequer passar do atual 5º ano do Fundamental. Uma situação absurda.

Essa não é uma realidade brasileira?
Estevão: Sim. Pesquisas mostraram que em 2006 havia 27% de alunos iletrados no Brasil. Ou seja, estávamos dentro dessa estatística. Mas imagino que nessa época, não só Orlândia, mas muitas outras cidades resolveram enfrentar o problema de maneira mais adequada.

Em Orlândia, esse número foi reduzido?
Estevão: Reduzimos esse índice a um número baixo, perto do zero. Então tenho a grata satisfação de dizer que enfrentamos esse desafio com sucesso. Porém, índice é apenas um indicador e não significa que o nível de ensino esteja como almejamos, e sim que evoluiu. É muito importante ressaltar que educação não é um tema que apresenta resultados rápidos. É um trabalho diário, cujos frutos começam a aparecer em 8 ou 10 anos. Nesse sentido, acredito que a futura gestão deve continuar a perseguir esse mesmo objetivo inicial.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Entrevista: Educação focada no futuro (Parte 1)

* Entrevista que concedi à Revista Nossa Escola – Dez/2008 (Parte 1)

Educação é prioridade. Esta frase já se tornou corriqueira no País. Mas desenvolvê-la foi o que procuramos fazer com afinco durante os oito anos em que estive à frente da Secretaria da Educação de Orlândia (2001 à 2008). E considero os resultados obtidos, verdadeiros motivos de orgulho.

Mesmo antes de assumir a Pasta, sabia dos desafios que teria. Na entrevista a seguir (primeira de 5 partes que publicarei semanalmente aqui no Blog), faço um balanço de minha administração, das resistências e dificuldades que enfrentei durante o período. Admito não ter realizado todos os projetos pretendidos, mas também expresso satisfação diante das inúmeras conquistas e sucessos alcançados.


Quais foram os problemas que você identificou ao assumir a Secretaria da Educação, em 2001?
Estevão: Ao analisar, naquela época, o ensino de Orlândia, um dos fatores que mais me chocaram foi a elitização do sistema público de educação na cidade, o que é uma grande contradição, pois se é público e gratuito, elitizar é um contrassenso. Havia uma absurda noção de que algumas escolas eram “naturalmente” mais elitizáveis, enquanto outras eram relegadas à marginalização. Tenho a convicção de que o preconceito de qualquer natureza não é somente um problema do ponto de vista ético. É também um problema que gera ineficiência na busca de resultados. Sempre um tiro que sai pela culatra. Por isso, a primeira providência teria que ser no sentido de garantir que todas as instituições tivessem um bom nível de ensino. E isso só seria possível com a municipalização. Sem nivelar por baixo, tínhamos que equiparar as escolas tanto no atendimento quanto na qualidade.

E como isso foi feito?
Estevão: A primeira providência foi a regionalização da matrícula, ou seja, o aluno deveria estudar na escola de seu bairro ou na mais próxima de seu endereço. Isso gerou protesto por parte dos pais, mas com o tempo eles perceberam as melhorias proporcionadas. Outro ponto que tratamos com atenção foi a questão da indisciplina, que era grande e atrapalhava o funcionamento das escolas, ao ponto de professores perderem, muitas vezes, o controle das aulas. Fizemos reuniões com as famílias, supervisores, professores e diretores para debates a respeito. Aperfeiçoamos o ensino, melhoramos a qualidade física das unidades escolares, que precisavam funcionar adequadamente para que a comunidade as respeitasse. Não nos livramos completamente da indisciplina, mas ficou sob controle.