segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Os sinos de Belém

No final do mês passado li, estarrecido, uma notícia que dizia o seguinte: a Suíça, democraticamente, aprovou uma lei que proíbe a construção de minaretes em todo o território daquele país. Confesso que tive que reler aquilo para não ter dúvidas do que estava escrito. Para aqueles que não estão familiarizados com a cultura muçulmana, as mesquitas são para eles o mesmo que as igrejas representam para os católicos, os templos para os protestantes e as sinagogas para os israelitas. E tradicionalmente, os islamitas constroem minaretes junto às suas mesquitas. São construções em forma de torres em cujo topo os seus líderes religiosos sobem para “chamar” seus fiéis para as orações que estão previstas em seu livro sagrado, o “Alcorão”. E qual a justificativa para tal proibição? “Barrar a muçulmanização daqueles cantões ‘europeus’”.

Ora, estes mesmo muçulmanos que hoje habitam a Suíça foram aceitos, ou mesmo levados para lá, a fim de executarem tarefas que os “educadíssimos suíços” não querem, eles mesmos, executar. Ou seja, estes “estrangeiros esquisitos” são mão de obra barata para trabalhos indesejáveis entre aqueles que se dizem civilizados e naturais de um país considerado de primeiro mundo.

Proibir a construção de minaretes é equivalente a impedir a construção de torres, com sinos que também “chamam” fiéis para os serviços e missas e com uma configuração arquitetônica tão típica, tão comum, que, facilmente, identificamos como igrejas. O que os cristãos, em geral, achariam de uma arbitrariedade dessas? O que me parece estar subentendido nesta lei suíça, é que eles “inventaram” (e precisam “desinventar”) que os povos “subdesenvolvidos” podem querer ir progredir na Suíça para fazer o “trabalho sujo”, pelo qual, eles, suíços, pagam para não fazer. Mas que, ao mesmo tempo, os imigrantes devem esquecer suas culturas e crenças “inferiores” das quais são oriundos e que devem se adaptar na “marra”, ou à lei, conforme aquilo que consideram sua superior civilização ocidental. Em todas as correntes filosóficas e éticas com as quais tenho tido contato, a tolerância está no topo das virtudes desejáveis. Considero-a, no entanto, necessária, mas não suficiente. A tolerância é o inicio da convivência pacífica. Mas o respeito e o carinho pelas diferenças, estas que existem entre nós, são o verdadeiro amalgama da harmonia humana. Mas a pergunta que fica entre nós é o que estes suíços estão pretendendo? Optar pela intolerância? Estão na contramão de tudo o que é ético?

Nós brasileiros, enquanto comunidade nacional, estamos longe de ser perfeitos. Longe mesmo! Aliás, muito distante do que, em geral, o primeiro mundo acha que deveríamos ser! Mas nesta questão eu tenho a impressão que estamos muito acima desta barbaridade helvética. Ou, pelo menos, assim espero.

Finalizando, é preciso que se repita o que já foi dito desta terrível lei suíça. Ela foi aprovada pela maioria de seu povo. E eu me pergunto: e daí? A verdadeira democracia não será jamais alcançada simplesmente pela vontade da maioria. Talvez, mais importantes sejam os direitos e as garantias inalienáveis dos indivíduos a das minorias, que não podem, nunca, ter suas integridades violadas pelo voto, ou votos, de quem quer que seja. Afinal, não foi porque Hitler teve (e realmente obteve) o apoio da maioria do povo alemão, que ele deixou de ser o ditador hediondo, que de fato foi. Em suma, defender aqueles que são diferentes de nós é defender a diferença que nos dá não só identidade e personalidade mas, principalmente, o caráter para seguir adiante. Quero minaretes pelo mundo afora, para poder, entre outras coisas, continuar a ouvir os sinos de Belém.

2 comentários:

  1. Estevão, gostei da forma como trata as questões éticas, democráticas e da diversidade sociocultural. Realmente uma lei como esta em um país "desenvolvido" requer comentários. Parabéns!

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  2. Estevão, olha que beleza a liberdade religiosa dos fundamentalistas cristãos dos EUA
    http://tpmdc.talkingpointsmemo.com/2010/07/tennessee-lt-gov-religious-freedom-doesnt-count-if-youre-muslim-video.php

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